"Cuidar é sempre possível!"
 
Andamento I – Falemos de Cuidados Paliativos, de fotografia, de abrir os olhos mas também o coração…
Dos olhos e do tempo… com o coração
 
Falar de Cuidados Paliativos, de fotografia, de abrir os olhos mas também o coração… sim, este é o projecto; a ideia vem de 2015, tem origem em experiências pessoais e não poderia ter outro móbil que não fosse fazer falar de Cuidados Paliativos – tinha de fazer este trabalho. Com suporte na imagem, linguagem maior deste meu trabalho, assumi-o como um exercício de cidadania, com o objectivo da partilha e da divulgação ao público, envolvido ou não nesta temática, relevando o convívio e as estórias contadas pelos doentes, cuidadores, médicas e enfermeiras que encontrei neste caminho. Já em fim de recolha de imagens, senti a necessidade de um outro objectivo: uma homenagem – aos que me fizeram crer que desenvolver esta actividade profissional é mais do que uma competência, uma habilitação, uma profissão; foi naquele almoço que conclui: só pode tratar-se de uma “Vocação” – “… é uma esponja de água morna, é um banho demorado, é dar a mão para proporcionar um sono tranquilo nas noites longas do hospital…”. (1)
 
Quis encontrar uma definição, um conceito que ilustrasse o que são os Cuidados Paliativos; optei por ir rebuscar ao que, do primeiro dia, permaneceu ‘cá dentro’, com a primeira partilha com a médica, enfermeiras, com o primeiro doente. E recordo que a primeira ideia é “Tempo”: o tempo de manter os doentes com dignidade, conseguindo que percepcionem os afectos, que leiam um jornal ou que façam tricot. E, assim, é a ideia deste “tempo” que passa a acompanhar-me todos os dias. Todos cuidam de que os doentes possam viver esse “tempo” com aquele carinho que está sempre presente nas despedidas para uma longa viagem. Alguém disse “se não podes dar-lhe dias à vida, então cuida para que tenha vida nesses dias”.
 
Dar sentido às imagens
 
E ficam as imagens que, por detrás, contêm as estórias contadas, mas também as dúvidas de autor que, para fotografar, procura a possível cumplicidade com os doentes, não lhes supondo as noites demoradas, os sonhos suspensos, os momentos de solidão, mesmo neste “tempo de cuidar” que os rodeia, mesmo neste tempo onde não há pressas.
 
Ao fazer as fotografias procurei que as imagens resultassem de me posicionar num ângulo paralelo ao dos que cuidam e dos que exercem a sua profissão. Logo à partida, dispensei o retrato perfeito e o objecto alinhado; ensaiei o desvio, num olhar que paira, sem parar, que conversa, quando disso se trata; se “falar de Cuidados Paliativos, é falar de simplicidade, compaixão, compreensão, mas também de uma enorme gratidão pela vida…” (2), dar sentido às imagens foi procurar estar próximo das queixas, das estórias, da ternura, dos sorrisos e da falta deles, dos espaços e dos profissionais, enfim, próximo daquilo que faz parte destes dias de dor, mas de dignidade e de afectos, dias de tanto tempo e da falta dele.
 
Da inquietação à descoberta
 
Na maioria das imagens imponho o foco e o lugar de ver - é o meu sentir, enquanto trabalho. Mas, porque esse meu olhar paira sem parar, porque as imagens ficam livres, já que libertas de linhas rígidas e de enquadramentos fáceis e facilitadores, porque exerci a liberdade de cortar horizontes e rostos, de verter luz onde parece não haver nada, convido cada um de vós a que, depois de tateadas algumas delas, se desligue das mesmas e se sinta disponível para a inquietação, para a interrogação e para a descoberta de que, para lá das imagens, “cuidar é sempre possível”.
 

Fotografias em Beja, Castelo Branco, Fundão e Portalegre

(1) – Gina Agostinho – enfermeira, Fundão
(2) – Isabel Duque – médica, Castelo Branco
No Andamento II – Na bagagem, conhecimentos, sorrisos, palavras de conforto… objectivo: chegar ao destino e cuidar!
Todas as imagens e textos originais 
 © 2017 João Leonardo
Banda sonora:
"The Weeping Meadow" - Eleni Karaindrou