"Cuidar é sempre possível!"

Andamento II – “Na bagagem, conhecimentos, sorrisos, palavras de conforto… objectivo: chegar ao destino e cuidar!” (1)

Das viagens com estórias

Uma das vertentes mais valiosas, desta metodologia que são os Cuidados Paliativos, é a possibilidade de o doente optar por estar em casa, junto dos cuidadores, no ambiente e conforto que lhe são familiares. O apoio domiciliário representa, assim, uma vantagem humanista, logística e, ainda, de ordem financeira. Por essa razão, fazer estas viagens com as enfermeiras e médicas, por caminhos que percorrem diversas vezes por semana, era um dos âmbitos mais esperados por mim, já que iriam proporcionar imagens de outra natureza. Aqui as estórias contam-se num sofá, há um cão a passear, o doente calça sandálias, dialoga com cuidadores e enfermeiras enquanto “reavaliam a dor”, e veste-se na sua roupa.

As conversas são como notas soltas de música, enquanto dedilhamos distraidamente. Vem isto a propósito do ‘Sr. Manuel’; de discurso fácil, culto, muito afável e por vezes entusiasmado, conta do seu empenho e responsabilidade na criação da fanfarra; foi há tantos anos, mas ainda recorda a sua passagem pelas notas de música; anos mais tarde, foi convidado a criar a banda; ele sabe que é outro nível, "… é outra música…” diz-me. E, dedilhando, prossegue com o desfilar das estórias da tropa, de tão curta memória, que nem sabe se por lá andou ou se só pisou a parada do quartel.

Mais ali, encontro um quase velho conhecido - aos 12 anos subia a colina com um carrinho de mão, a entregar 13 quilos de "Gazcidla", naquelas bilhas cor de alumínio - "… você já não se lembra…" atirava confuso, mas soberano por ter mais um aniversário do que o fotógrafo ali à sua frente. E, ao miúdo ‘Francisco’, davam-lhe “… a enxerga para dormir e comida… ordenado? nem sabia o que isso era; não vê, eu era um miúdo e estava cá sozinho…". O agora ‘Sr. Francisco’, reservado, com muitas "estranjas" pela vida, acha que, hoje, o relógio é a sua personalidade. A colina, essa, ainda lá está, no bairro onde vivi.

Para lá das imagens, o direito à serenidade e uma lágrima

É nesta malha alternada de tensões e serenidade, risos francos, com um lenço de papel com que lhe enxugo as lágrimas, é por aqui que construo as imagens de um tempo de conforto relativo – imagens de um direito: “… não promover ou não disponibilizar uma cobertura destes cuidados, que permita equidade no acesso, é hoje considerada uma forma de tortura e um total desrespeito perante este direito de todos nós…”. (2)

Se, a partir da inquietação e da descoberta, estas imagens despertarem, em cada cidadão, a consciência deste direito – “… este direito de todos nós…”(2) – julgo que este projecto terá ganho o seu sentido, permitindo aos corações verem para lá do resultado das fotografias: “É preciso abrir os olhos, mas também o coração, para compreender os Cuidados Paliativos; espero mesmo que este projecto nos ajude nesta demanda! Porque isto tem de ser de todos, para todos! Trata-se de defender a nossa humanidade. Negar a morte é negar parte da nossa natureza” (3), e porque “cuidar é sempre possível”.

Fotografias em Beja, Castelo Branco, Fundão e Portalegre

(1) Ana Isabel Marques – enfermeira, Fundão

(2) Manuel Luís Capelas – professor auxiliar na UCP, presidente da APCP (Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos)

(3) Catarina Pazes – enfermeira, Beja

No Andamento III – “Fotografia e Cuidados Paliativos? Sim, presença e consideração”

Todas as imagens e textos originais 
 © 2017 João Leonardo
Banda sonora:
"The Weeping Meadow" - Eleni Karaindrou