"Cuidar é sempre possível!"

Andamento III – “Fotografia e Cuidados Paliativos? Sim, presença e consideração” (1)

Três passos e muitas bandeiras para somar vida aos dias

Se o leitor não acompanhou os “andamentos” anteriores, digo-lhe que este é o último dos três que integram este trabalho, parte de um projecto mais vasto. Sendo um projecto de divulgação e partilha, com suporte na fotografia e materializado a 3 passos, a) na produção de um livro, b) na publicação possível na comunicação social, e c) na produção de uma exposição itinerante, pretende, quanto possível, constituir-se num móbil para que esta metodologia – os Cuidados Paliativos – saia para fora das actuais zonas de conhecimento e de trabalho, chegando onde hoje não chega, por falta ou menor conhecimento – as famílias, os doentes, as classes médica e de enfermagem, os decisores.

 

É que “esta arte, que mostra a realidade visível, pode também projetar aquele que a vê noutras dimensões, … naquilo que pode ser sugerido e que tantas vezes é mais profundo”.(1) Para lá das imagens que proponho, há a realidade das paixões menos ferventes, das saudades em gotejos de lucidez, dos sonhos para realizar, tudo acompanhado pela dor e pelo tempo que sobra.

 

“O doente é entendido como um todo, nas suas vertentes, física, emocional, social, espiritual”. (2) Por isso, forrar o quarto com bandeiras e promover a deslocação do doente acompanhado dos cuidadores, para assistir ao jogo do seu clube de paixão, é “somar vida aos dias que sobram”. Foi assim, e só agora, que o ‘Sr. Alberto’ viu cumprir-se um desejo e realizou um sonho alimentado há muito. “Enquanto equipa tentamos, sempre que possível, resolver questões que estejam pendentes e sejam do interesse do doente. Satisfazer desejos que possam ser concretizáveis”. (2)

E, finalmente, uma valsa

 

“É hoje internacionalmente reconhecido que, quando aplicados precocemente, os Cuidados Paliativos … diminuem a carga sintomática dos pacientes e a sobrecarga dos familiares, … diminuem os tempos de internamento hospitalar, os reinternamentos, a futilidade terapêutica, o recurso aos serviços de urgência e aos cuidados intensivos e, consequentemente, diminuem os custos em saúde.” (3)

 

Ao longo de todo o projecto encontrei, em todos os profissionais, esta preocupação insistente: a necessidade do início precoce desta metodologia dos Cuidados Paliativos, pelo que representa para o doente, mas também, e ainda assim, pelo que significa de facilitação, na fase seguinte de doença aguda, em todo o trabalho de integração desenvolvido pela “Equipa”: o doente, a família, os profissionais. Por isso, “… um reencontro com um familiar distante, o dançar uma valsa com uma enfermeira, a reconciliação com familiares, o ser testemunha do casamento da filha…” (2) são algumas das imagens contadas que nos podem despertar para a feliz inquietação – de que possamos, um dia e todos, ter à nossa volta o trabalho de “toda a Equipa”, onde “… valorizamos a vida do ser humano até ao fim, tornando-nos cada vez mais humanos”. (2)

Como referi, este trabalho de publicação é um dos passos na concretização de um projecto mais vasto; nela cabem, desde já, agradecimentos muito sentidos – ao apoio e incentivo, às conversas e ensinamentos, às amizades e companheirismo; perdoem-me todos, mas guardo-os para a publicação do livro, em preparação, onde, melhor e todos, irão caber os “parceiros desta viagem”, como os sinto e sempre lhes chamei.

 

“Fotografia e cuidados paliativos?! Sim. E porque é mais uma forma de mostrar presença e consideração” (1), e porque “cuidar é sempre possível”.

Obrigado!

Fotografias em Beja, Castelo Branco, Fundão e Portalegre

(1) – António Lourenço Marques – médico, pioneiro dos Cuidados Paliativos, 1992, Fundão

(2) – Lurdes Bonacho – enfermeira, Portalegre

(3) - Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos, Biénio 2017-2018 - Comissão Nacional de Cuidados Paliativos

Todas as imagens e textos originais 
 © 2017 João Leonardo
Banda sonora:
"The Weeping Meadow" - Eleni Karaindrou